Eu tenho em meus pés a minha segurança.
Aprender a andar foi para mim, a maior conquista. Podia fugir.
Pequena fugia e virava a esquina. Refugiava-me na casa de um casal de idosos. Eram bacanas pra mim.
Minha primeira experiência com o pavor foi com meu pé esquerdo. Eu tinha 3 anos e cortei-o. Olhei sangue pelo chão e uma massa vermelha e branca por dentro. Foram 7 pontos. Bem, sete pontos num pé de criança de 3 anos é muito. Nunca esqueci do cheiro do hospital. Da dor. De minha mãe não estar presente.
Com meu pé salvo, lanceio a beijar o chão nas aulas de ballet. Minha primeira turma foi dissolvida. As meninas desistiram. Uma mudou com a família, lembro-me.
Tive de me adequar a uma turma 2 anos mais adiantada nos ensinamentos do ballet clássico.
Eu acompanhava. Mas no dia do exame, todas as meninas passaram pela a aprovação: usariam sapatilhas de ponta. Menos eu. Porque eu era muito "precoce".
Lembro que chorei.
Qual o sonho de uma menina que faz ballet senão sentir-se na ponta dos pés.
Como doeu.
Passei a ser intolerável com meus pés. Eles vultosamente desenvolveram. Em um semestre o peito de meus era em forma de monte. Passei para as pontas. Passei a quebrar o gesso das pontas.
Meus pés eram fortes demais. Minha mãe reclamava dos gastos. "Muito caro". Eram várias sapatilhas por ano. As meninas faziam fila para me deixar emprestada suas sapatilha para amaciá-las. Eu as usava e o gesso já cedia.
Meu orgulho, meus pés no ballet.
Meus pés nucna me deixaram na mão. Eles eram minha maior segurança.
Tenho tropeçado com frequência. Meus pés andam pisando pro lado de fora. Heranças do ballet.
Sempre estou machucando meu pé direito. Ele esta definitivamente torto.
Já são 4 verões que os enfaixo.
Dói. Incha. Este pé direito torto....
Acho que reflete minha mente torta....
Minha incapacidade de direção.
O primeiro passo que doié com este pé...e ele está tão frágil.
Já fiz fisioterapia e ja usei pomada. Este pé sempre vai e volta.
Meu pobre pé direito torto... sustenta o mundo, meu mundo tolo
Nenhum comentário:
Postar um comentário